Eu não sou como esses tantos
Que dizem que escrever é dar ênfase aos nossos ideais,
Eu não sou escritor, nem poeta,
Nem tão-pouco fecundo encantos.
Eu apenas permaneço leal às palavras e elas a mim leais.
Tenho, com as folhas de papel, uma relação...
Em que cada um de nós é uma parte,
Elas deixam-me esventrá-las com a minha voz, em vão,
E eu deixo-as exibir a minha arte.
É como um negócio, mas de amizade...
Eu orlo-me fido isíaco sob a penumbra desta união,
E ambos voamos exalados coniventes em liberdade!
Eu? Não, não sou como esses, errantes
Entre umas palavras e outras,
Eu não sou criador de espaços,
Nem de tempo, nem de instantes!
Eu devaneio sob a alçada dos meus passos
E vou escrevendo o que me vem à cabeça...
E enquanto houver folhas brancas no mundo,
Não há Deus que me impeça!
Porque eu e as folhas somos cúmplices
Das nossas próprias histórias
E desventuras,
Que as nossas glórias
São eternas e singulares loucuras!
Ah... Eu não sou como esses...
Que não sabem o que escrever,
E que em estranhas artimanhas
Vão encontrando as suas próprias falas...
Mas isto sou eu, porque não sou escritor, nem desejo ser!
E eu gosto das folhas em branco!
Para escrever as minhas palavras... (Minhas!)
Porque são feridas que estanco
De outras batalhas,
Perpetuamente petrificadas entre linhas.
E nós temos uma relação de amizade,
Eu oiço-as a elas, e elas ouvem-me a mim,
Nunca ficando em soledade...
E são as minha palavras que quero que louvem, não a mim!
Então, enquanto houver folhas em branco,
Significa que há ainda muito para dizer,
E muito para ser dito!
E enquanto eu não parar de escrever,
Haverá sempre mais para ser escrito!
Eu não me angustio com folhas em branco,
Eu amo-as, para ser franco!
Eu? Eu não sou poeta, porque poemas faço,
Eu sou só um amante de um querer escasso...
De querer escrever sobre essas linhas vazias,
E por isso escrevo todos os dias!
E é assim que tem de ser!
Até que se apague o impetuoso círio anarquista
Do meu voluptuoso escrever!
Até que o breu
Insista
Em gretar todos os pedaços de escrita
Cuja génese dou o nome de "eu".
[Quem me dera estar bêbado]
Há 10 anos